O Homem Feudal e as Escolas Medievais 1


A sociedade feudal

O feudalismo inicia-se com a queda do Império Romana e, com ele, muitas mudanças ocorreram na organização da sociedade.

O declínio da sociedade escravocrata fez com que os grandes proprietários confiassem parte de suas terras àqueles que nada tinham (servos – descendentes dos antigos escravos – ou vilões – descendentes de antigos colonos romanos) em troca de algum tipo de compensação. Estes não eram escravos, mas não se pode dizer que eram totalmente livres porque, para viver de seu trabalho, tinham que explorar terras de outrem e entregar-lhe parte do resultado, além de prestar-lhe serviços pessoais.

Do ponto de vista dos donos da terra, a servidão representava uma real vantagem sobre a escravidão. Era necessário um grande capital para adquirir e manter os escravos necessários, ao passo que a servidão não requeria nenhum gasto; o servo custeava a sua própria vida, e todas as vicissitudes do trabalho corriam por sua conta. A servidão constituía, pois, a única maneira de que o patrão dispunha para tirar proveitos dos seus fundos, ao mesmo tempo que também constituía o único modo dos que não possuíam terras proverem o seu próprio sustento.

O poder da Igreja no período feudal

A Igreja também foi crescendo durante o feudalismo e foi abandonando pouco a pouco a sua significação inicial. Agora, mesmo dizendo que todos são iguais, aceitava a hierarquia existente e deixava essa condição de igualdade para um mundo extraterreno. Ou seja, deixou de lado as lutas para evidenciar seus princípios de igualdade, contra a propriedade privada e exploração dos mais fracos, para se transformar em grande proprietária de terras e controladora de quase toda a economia feudal.

As poderosas instituições bancárias eram os monastérios, uma vez que estes eram os detentores das maiores riquezas (o nobre gastava toda a riqueza que passava por suas mãos e o monastério entesourava e aumentava toda fortuna que chegava). Em momentos difíceis eram aos monastérios que as pessoas recorriam e, em troca do empréstimo, hipotecavam seus bens, o que enriquecia ainda mais a Igreja.

Dentro dos monastérios também havia uma hierarquia, onde escravos, servos e conversos trabalhavam, enquanto que os monges (que provinham da nobreza) se dedicavam ao culto e ao estudo.

As escolas medievais

Com todo esse poder, os monastérios se tornaram também nas primeiras “escolas” medievais, já que as outras escolas haviam desaparecido. Essas escolas, então, estavam divididas em duas: uma, destinada à formação dos monges, com enfoque à instrução religiosa e; outra, para a plebe, onde não se ensinava ler nem escrever, mas a doutrina cristã, a docilidade e o conformismo.

Passado algum tempo, criou-se um novo tipo de escola, a externa, destinado aos clérigos seculares e alguns nobres. A disciplina era rigorosa, o ensino estava voltado para a gramática, retórica e dialética. Mas, através do diário de um aluno da época, percebeu-se que se aprendia a ler o latim, sem compreender o que se lia. Essa escola formava juristas doutos, secretários práticos e dialéticos hábeis, capazes de aconselhar imperadores e de fazer-se pagar regiamente pelos seus serviços.

Muitos alunos destas escolas, depois de aprenderem a gramática e saberem ler (porque não havia muito interesse em escrever e este ato era considerado muito difícil) saíam e buscavam a educação cavalheiresca, porque se preocupavam mais em aumentar suas riquezas do que com a instrução e a cultura e, conquistá-las através do saque e violência resultava mais fácil.

A formação de cavaleiros

A formação de cavaleiros era parecida com a oferecida na Grécia Antiga: o futuro cavaleiro ficava sob tutela da mãe até os 7 anos, quando se tornava pajem de um cavaleiro. Ao completar 14 anos, era promovido a escudeiro e acompanhava o cavaleiro às guerras, torneios e caçadas. E, com 21 anos, era armado cavaleiro.

O cavaleiro era fiel ao senhor, se preocupando somente com a guerra e não dava importância à administração da grande extensão de terra que lhe pertencia, buscando nela apenas a renda que tinha.

Havia guerras entre os senhores feudais, por cobiça, nas quais se buscavam riquezas já produzidas, como: abastecimentos militares, tributos pagos pelas cidades etc. Não era interessante conquistar coisas que deveriam ainda ser exploradas ou produzidas.

O surgimento da burguesia

O senhor feudal não produzia nada, era como um parasita: vivia e permanecia em sua posição devido ao trabalho de seus vassalos; e também não sabia qual era a sua receita e a sua despesa.

Com a circulação de dinheiro no feudo, começou a entrar mercadorias no castelo e o comércio nos burgos começou a crescer. As cidades se transformaram em centros comerciais, onde os produtores trocavam os seus produtos. Os seus habitantes, chamados burgueses, acabaram se fundindo em uma classe predisposta a uma vida pacífica e urbana, bem distinta da vida guerreira e rural.

Assim, os burgueses foram crescendo e passando por cima de alguns senhores feudais, religiosos e leigos, até que houve a necessidade de uma reforma no estado de coisas, o que deu a eles mais direitos, ocasionando pouco a pouco a perda do poder absoluto do senhor feudal.

O surgimento da universidade

Com todas essas transformações, a educação também passou por algumas mudanças. Os monastérios, localizados em zonas rurais, já não atendiam a todas as necessidades, uma vez que o comércio nas cidades exigia um outro tipo de instrução. Então, o ensino passou das mãos dos monges para as do clero secular. Estas escolas, catedralícia, se interessavam pela teologia e a instrução, assim como as monásticas, não tinha importância. Mas, com a influência da burguesia, que exigia instrução, surgiu, no século XI, a universidade, através da escola das catedrais.

A princípio, a universidade era um local onde homens livres se reuniam para desenvolver as ciências. Nelas, existiam provas e graus: bacharel, licenciado e doutor. E eram os estudantes quem determinavam seu funcionamento: início das aulas, duração do curso etc. No entanto, as universidades estavam sob influência do rei e da Igreja.

A fundação das universidades permitiu que a burguesia participasse de muitas das vantagens da nobreza e do clero, que até então lhe tinham sido negadas. A conquista de um título universitário elevava o burguês quase ao nível da nobreza, e desde o momento em que ostentava orgulhosamente os signos da dignidade doutoral – a borla, o capelo, o anel e o livro –, ele já começava a ser encarado como um nobre.

Chegou o momento em que não era mais necessário ser clérigo para ser reitor da universidade e os interesses deixaram de ser apenas religiosos para também ser filosóficos e lógicos. Por isso, comerciantes e artesãos dominavam estes centros de estudo por suas riquezas.

O ensino era pago e, conseqüentemente, todos os membros existentes ali eram ricos.

Mais escolas

A pequena burguesia lutou para haver escolas primárias municipais, fugindo, então, do controle da Igreja. Isso foi uma conquista mais difícil, mas, mais uma vez, a burguesia venceu. Nestas novas escolas medievais, o ensino estava voltado às necessidades da vida, diferentemente das catedralícias. Embora, serem aquelas escolas do município, o aluno deveria pagar seus professores, ou seja, a educação continuava a ser só para as pessoas ricas.

As discrepâncias ente as escolas catedralícias e as monásticas, o burguês letrado e os senhores guerreiros fizeram com que surgisse um outro tipo de escola: a escolástica. Desde o século XI até o XV, a escolástica representou no front cultural um verdadeiro compromisso entre a mentalidade do feudalismo em decadência e a da burguesia em ascensão; um compromisso entre a fé, o realismo e o desprezo pelos sentidos, de um lado, e a razão, o nominalismo e a experiência, do outro.

A Igreja, assim, corria o risco de perder seu controle na educação, o que a faria perder o poder na sociedade, e criou diversas ordens de pregadores: franciscanos, dominicanos, entre outros. Porém, os avanços já estavam se tornando incontroláveis: iniciou a “era das invenções”, nas universidades o latim já era substituído pelos idiomas locais e os livros impressos começavam a surgir.

O Renascimento e a ascensão da burguesia

A fase do Renascimento inicia com uma explosão cultural. Entretanto, essa cultura continuou a ser somente para as camadas privilegiadas da sociedade. Através desse novo movimento, os burgueses retomaram a arte da Antiguidade, como uma maneira de se opor à nobreza e à Igreja.

O Renascimento se propôs formar homens de negócios que também fossem cidadãos cultos e diplomatas hábeis. E, para que isso realmente acontecesse, a burguesia buscou o apoio da monarquia, emprestando-lhe dinheiro e apoio.

Um outro avanço que fez com que a burguesia tivesse vantagem sobre a nobreza foi a arma de fogo, porque enquanto os cavaleiros continuavam com suas técnicas, a burguesia usava novos métodos bélicos, desenvolvidos nas indústrias e financiados por esta classe.

Assim, burgueses tomavam pouco a pouco as terras dos senhores feudais, continuavam enriquecendo e despontavam também com as navegações para conquistar outros “mundos”.

 

Fonte: PONCE, Aníbal. Educação e luta de classes. 21 ed., São Paulo: Cortez, 2005, p. 83-112.


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