A vida e a educação em uma Comunidade Primitiva


“Coletividade pequena, assentada sobre a propriedade comum da terra e unida por laços de sangue, os seus membros eram indivíduos livres, com direitos iguais, que ajustaram as suas vidas às resoluções de um conselho formado democraticamente por todos os adultos, homens e mulheres, da tribo. O que era produzido em comum era repartido com todos, e imediatamente consumido. O pequeno desenvolvimento dos instrumentos de trabalho impedia que se produzisse mais do que o necessário para a vida cotidiana e, portanto, a acumulação de bens”.

Este parágrafo, escrito por Ponce (2005: 17) define bem como era a vida numa comunidade primitiva: neste tipo de sociedade não havia instrumentos muito desenvolvidos, fazendo com que os indivíduos gastassem todo o seu tempo para substituir o consumido no dia anterior; não havia diferenças entre os sexos, sendo que as funções tanto dos homens (fornecimento de alimentos) quanto das mulheres (economia doméstica) se complementavam.

As crianças, depois dos 7 anos, já deveriam viver por conta própria. E, antes desta idade, acompanhavam os adultos e aprendiam observando e também executando tarefas de acordo com suas capacidades – “o ensino era para a vida e por meio da vida” (PONCE, 2005: 19).

Aqui, as crianças iam naturalmente introjetando a sociedade: o seu modo de ser e fazer, até transformarem-se em adultos, “adultos tão idênticos uns aos outros que Marx dizia que ainda se encontravam ligados à comunidade por um verdadeiro ‘cordão umbilical’” (PONCE, 2005: 19).

Nessa sociedade, aos poucos, a divisão do trabalho foi se ampliando, uma vez que se fazia necessário pessoas para distribuir os produtos, para supervisar o sistema de irrigação, etc., ou seja, houve a necessidade de pessoas que exercessem atividades diversas às do trabalho material. Isso, à princípio, não diferenciou as pessoas, já que todos os trabalhos tinham a mesma importância; entretanto esse foi o início para uma hierarquia e exaltação de poder.

Outro fator que influenciou a divisão social foi o aprimoramento das técnicas de produção, decorrente da domesticação animal e a utilização deste para auxiliar o homem em seus trabalhos. Isso fez com que este produzisse mais rapidamente, restando um período de tempo livre, que ele usava ou para produzir outras coisas ou desenvolver ainda mais suas técnicas. Assim, o trabalho do homem passou a ter valor.

Por haver mais produtos para consumo já era possível haver mais pessoas, o que fez com que os prisioneiros de guerra fossem desejados e, conseqüentemente, houvesse mais pessoas para trabalhar (estas, como escravas).

Com o aumento da produção, trocas começaram a serem feitas com outras tribos.

As funções administrativas da tribo passaram a ser hereditárias e as terras, propriedades privadas daqueles que as administravam e defendiam.

Com isso, a matrilinearidade, que até então imperava (uma vez que era difícil saber quem eram os pais das crianças numa comunidade onde não havia casamento), foi substituída pelo patriarcado, porque aqueles que organizavam as terras queriam “assegurar a perpetuidade da riqueza privada através das gerações”. Desta maneira, a mulher deixou de ter uma função social, ficando com a função doméstica e de submissão ao marido.

A educação começou a refletir a desigualdade dessa sociedade: os “administradores” não queriam divulgar seus conhecimentos para não correrem o risco de perder sua posição perante essa nova sociedade, então ensinavam aqueles da mesma família o seu cargo.  Enquanto que os outros permaneciam com o saber vulgar.

A educação para aqueles que iniciariam um ofício não envolvendo os trabalhos manuais não é mais espontânea como anteriormente. Aí já começa a haver diferenciação entre os iniciados e os não-iniciados, surgindo assim uma hierarquia com relação à idade e, consequentemente castigos e reprimendas para os mais novos. “A educação sistemática, organizada e violenta surge no momento em que a educação perde o seu primitivo caráter homogêneo e integral” (PONCE, 2005: 28).

Um outro fator bastante significativo que contribuiu para acabar com a comunidade primitiva definitivamente foi o aparecimento do Estado, que auxiliou a perpetuação da divisão de classes e o “direito” de exploração da classe dominada pela exploradora.

FONTE: PONCE, Aníbal. Educação e luta de classes. 21 ed., São Paulo: Cortez, 2005, p. 17-34.

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