Como educar nossas crianças e adolescentes


Os educadores sentem-se inseguros e desmotivados para lidar com o conflito, que, na maioria das vezes, é visto como uma coisa antinatural. No entanto, na perspectiva construtivista, o conflito é visto como necessário e é por meio dele, por exemplo, que se trabalha a autorregulação.

O professor deve aprender a lidar com as crises, mas é muito difícil vermos esse tema ser trabalhado tanto na graduação quanto nos cursos de formação continuada. Desse modo, ele acaba usando de mecanismos, como conter, evitar ou ignorar o conflito, não aproveitando esses momentos para aprendizado do aluno de como relacionar-se e ser uma pessoa autônoma e ética.

É fato que nós temos vários “quereres” no nosso dia a dia que se contradizem entre si, mas ao desenvolver a autorregulação, somos capazes de agir de maneira mais ética. Por exemplo, eu não consigo dominar dentro de mim o desejo que sinto por um homem, mas eu posso não expressar esse sentimento se ele for casado. É aí que a ética atua, ela não põe restrição ao sentimento, mas sim aos atos. Isso deve ficar claro aos alunos e também aos professores na escola.

No entanto, para “resolver” os conflitos, a escola costuma usar sempre a mesma estratégia, mesmo quando percebe-se que estas não trazem resultados efetivos.

Telma Vinha alerta: uma regra reverte em ação se está envolvida com afetividade.

Deve-se trabalhar a consequência das atitudes, ampliando também o valor que o indivíduo tem para desenvolver a autorregulação. Muitas vezes, a escola faz o aluno pagar uma punição, mas não o faz pensar nas consequências dos seus atos – isso não gera aprendizado: pode fazer com que a pessoa não cometa mais a infração, mas por medo da punição e não porque aprendeu o motivo pelo qual não se deve ter tal atitude. Esse ato pode fazer com que ela reincida na infração quando não houver a presença de uma figura de autoridade.

Uma questão que geralmente é mal trabalhada na escola é a maneira como os professores lidam com agressões entre os pares. Na maioria das vezes não se dá o devido valor a isso – pesquisas mostram que a punição é muito maior ao aluno que desrespeita uma figura de autoridade ou infringe uma regra estabelecida do que quando agride, seja verbalmente quanto fisicamente, um par. Claro está que o professor faz isso porque não sabe lidar com esse tipo de problema e acaba interpretando tal atitude como indisciplina. Mas essa questão é muito grave, pois é aqui que a aprendizagem sobre as relações interpessoais vai se dar.

Na sociedade há duas instituições responsáveis pela educação: a família e a escola. Na família, as relações são assimétricas, ou seja, as regras não são para todos (o filho deve dormir às 21h, mas o pai pode ficar assistindo televisão até à 1h, por exemplo). Já na escola, as regras são – ou deveriam ser – mais simétricas (o aluno não pode usar o celular e o professor também não, por exemplo) e as relações não são mais tão estáveis: a manutenção das relações depende de como se trata o outro (diferente da família, que mesmo eu batendo na minha irmã, ela sempre será a minha irmã). Assim, justiça e respeito se aprendem melhor no espaço público, ou seja, na escola, do que em casa, com a família.

Conflitos que acontecem na escola é responsabilidade da escola: levar para os pais é “assinar um atestado de
incompetência”. O ideal é que a escola faça uma análise desses conflitos, porém é muito comum haver a terceirização do conflito: o professor não considera que seja sua função lidar com o conflito e, por isso, ele retira o aluno da sala de aula ou manda bilhetes aos pais.

Por outro lado, a forma como a escola lida com o aluno no que se refere ao envio das informações para a família tem gerado sentimentos de fracasso e angústia nos pais, além de tensão no relacionamento com seus filhos, não resultando nas mudanças almejadas.
* Apontamentos da palestra: Diálogos Pertinentes: O papel da família e da escola na educação de nossas crianças, ministrada por Telma Vinha, em 21 de março de 2013, no Sinpro/SP

Para saber mais: Grupo de Estudo e Pesquisa de Educação Moral

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *