Fichamento do livro: Escute, Zé-ninguém! 2


* Texto escrito por Iracema Cerdan Zavaleta Galves

O livro comentado nas linhas abaixo foi escrito por Wilhelm Reich, em 1946, para os Arquivos do Orgone Institute (local onde Reich desenvolvia seu trabalho e onde escreveu seus últimos livros) e naquele momento não se pensava em publicá-lo.

Em seu livro Escute, Zé-ninguém!, Wilhelm Reich desnuda o homem comum, mostrando os seus defeitos e dificuldades para que ele seja capaz de superá-los e tornar o mundo melhor, o que é de responsabilidade somente do próprio sujeito, ou seja, mostra a alienação do povo diante da situação em que ele vive na sociedade.

Na realidade, o livro é um “tapa na cara” das pessoas que ali são chamadas de zé-ninguém; elas são acusadas de acomodadas, conformadas e dependentes de outrem. Este, por sua vez, teme que os zés-ninguéns percebam seu valor e assumam o poder, o que infelizmente está muito longe de acontecer, uma vez que o zé-ninguém prefere acreditar no que os outros dizem a confiar em seu companheiro ou em si mesmo: “não confia nos próprios olhos e na própria inteligência” (p. 47).

Pretende que o povo perceba sua importância e, para isso, desvaloriza aqueles que zelam pela aparência: “o grande homem, ao contrário de você, não considera que o objetivo da vida esteja na riqueza, em casamentos socialmente convenientes para suas filhas, numa carreira política ou em honras acadêmicas” (p. 23); e até mesmo questiona o valor das nações para uma melhor vida dos cidadãos: “prometem-lhe não a liberdade individual, mas a nacional. Nada dizem sobre auto-respeito, mas dizem que respeite o Estado (p. 18) ou o patriotismo, entretanto, liquidou você, zé-ninguém, pisoteou-o e esmagou-o aos milhões” (p. 51).

Wilhelm Reich mostra também certo rancor pela resistência da sociedade perante seu trabalho, suas pesquisas e descobertas.

O autor defende a importância da “prevenção das perturbações psíquicas” (p. 55) – o que considerava muito mais importante do que uma terapia individual – e para isso aconselha uma re-educação da vida sexual das pessoas.

Sobre a educação, também opina, alegando que a formação de crianças, se levada a sério, implica lidar corretamente com sua sexualidade. Para poder lidar corretamente a sexualidade da criança, é preciso que a pessoa conheça por experiência própria o que é o amor” (p. 61). E acrescenta: “não é que você me preocupe, zé-ninguém! Mas, quando penso nos seus filhos, quando penso em como destrói suas vidas atormentando-os na tentativa de torná-los ‘normais’ como você, quase tenho vontade de voltar para você e fazer o possível para impedir seus crimes. No entanto, também sei que você tomou suas precauções quanto a isso, nomeando ministros de educação e de assistência à infância” (p. 89).

O autor fala diretamente para um zé-ninguém – algumas vezes se coloca como tal, mas na maior parte das ocasiões, mostra-se como alguém que o observa, que o compreende e o quer auxiliar. Assim, aborda a questão da revolução social e do desejo do povo em conquistá-la e afirma que o futuro da humanidade depende desses zés-ninguéns, entretanto, eles não desejam assumir a responsabilidade dela e permanecem fugindo. “Você já se teria livrado dos seus opressores há muito tempo se não tivesse aprovado a opressão, e lhe dado tantas vezes apoio direto” (p. 20). Desta maneira, pode-se dizer que a culpa de toda essa situação é dessa classe desfavorecida. Mas, o que fazer para que a população tome consciência de tudo isso e se impulsione para uma transformação concreta? Reich tenta responder isso também, mas revela ser muito difícil, porque o homem comum não percebe sua própria força. “Acham que eu arriscaria minha vida falando com vocês se vocês não fossem importantes? Sua importância, sua enorme responsabilidade, torna sua mediocridade ainda mais monstruosa” (p. 100).

Você terá uma vida boa e segura quando estar vivo significar mais para você do que a segurança, o amor mais do que o dinheiro, sua liberdade mais do que a opinião pública ou do partido; quando o sentimento presente na música de Beethoven ou de Bach passar a ser o sentimento da sua vida inteira – você tem isso, está em você, zé-ninguém, em algum canto bem no fundo do seu ser; quando seu pensamento estiver em harmonia, não mais em conflito, com seus sentimentos; quando você tiver aprendido a reconhecer duas coisas na devida hora: seus dons e a chegada da velhice; quando se deixar guiar pelos pensamentos dos grandes sábios e não mais pelos crimes dos grandes guerreiros; quando você deixar de dar mais importância a uma certidão de casamento do que ao amor entre homem e mulher; quando aprender a reconhecer seus erros prontamente e não tarde demais, como faz hoje; quando você pagar aos homens e mulheres que ensinam seus filhos mais do que paga aos políticos; quando as verdades o inspirarem e as fórmulas vazias lhe causarem repulsa; quando você se comunicar com seus companheiros trabalhadores de outros países diretamente, não mais através de diplomatas; quando, em vez de enfurecê-lo como ocorre hoje, a felicidade no amor da sua filha adolescente fizer seu coração se encher de júbilo; quando você puder apenas abanar a cabeça ao se lembrar dos tempos em que as crianças pequenas eram punidas por tocarem nos próprios órgãos sexuais; quando os rostos humanos que você vir na rua não estiverem mais marcados pela dor e aflição, mas radiante de liberdade, vitalidade e serenidade; quando os corpos humanos pararem de caminhar por esta terra com pelves rígidas e retraídas e órgãos sexuais congelados” (p. 123).

O livro é muito interessante, pois chama a todas as pessoas comuns a responsabilidade para modificar a situação existente na sociedade de hoje, fazendo-as a refletir acerca de suas atitudes e pensamentos corriqueiros, enfatizando que são estes que fazem a diferença para um mundo melhor em sociedade.

 

Referência bibliográfica:

REICH, W. Escute, Zé-ninguém! 2ª ed, São Paulo: Martins Fontes, 2007.


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