A SÍNDROME DO NINHO VAZIO

Quando a pessoa chega a seus 50 anos mais ou menos, mudanças de papéis começam a ocorrer: a vida profissional geralmente está estabilizada, não havendo necessidade de aprender novas habilidades, ou está aposentando-se; os filhos começam a sair de casa, alterando bastante o papel de pai ou mãe e; sobra mais tempo para olhar o parceiro, ou seja, para a vida conjugal. Isso para alguns representa tranquilidade e felicidade, mas outras pessoas se veem deslocados (BEE, 1997).

“Diversos estudos sugerem que o casal em geral sente-se bem por ter filhos e poder criá-los, contudo a presença das crianças diminui a qualidade de vida do casal. Quando o casal se torna uma família, esta passa por diversos ciclos e, quando chega às vésperas de ver seus filhos se lançarem ao mundo, pode se deparar com sentimentos de infelicidade e vivenciar essa fase como insatisfatória”. A Síndrome do Ninho Vazio é exatamente esse período na vida de um casal. Ela está associada com uma desestruturação familiar, decorrente da saída dos filhos da casa de seus genitores, causando, assim, a perda do papel parental (SARTORI e ZILBERMAN, 2009). Claro, eles continuarão a apoiar e aconselhar, mas, por exemplo, não haverá mais a necessidade de alimentá-lo e limpá-lo (BEE, 1997).

“Síndrome do Ninho Vazio” e “Ninho Vazio” são termos que caminham juntos e, por muitos autores, são tratados como sinônimos. No entanto, prefiro diferenciá-los, como fez Sartori e Zilberman (2009), apontando que o primeiro evidencia um desconforto emocional por parte dos pais com a saída dos filhos de casa, enquanto o outro descreve esse período de mudanças no papel dos pais, considerando um período emocionalmente neutro. Há um terceiro termo utilizado atualmente: pós-paternidade, que, como os demais, traduziria essa fase da vida humana, mas tiraria a conotação de sofrimento que é trazida pelos termos anteriores citados.

Esse período de transição na vida do ser humano não afeta a todos de maneira igual, dependendo muito da história de vida de cada um, além dos fatos atuais pelos quais está vivenciando. “A Síndrome do Ninho Vazio parece estar ligada à cultura, ou seja, em países onde as pessoas estão acostumadas e preparadas para se separarem dos filhos, a síndrome parece não trazer grandes mudanças ou conflitos. Contudo, em culturas em que as pessoas (principalmente as mulheres) se dedicam exclusivamente à criação dos filhos, observou-se que ainda existe sofrimento e sentimento de solidão, que podem estar associados ao desenvolvimento de quadros depressivos e alcoolismo” (SARTORI e ZILBERMAN, 2009).

Pode acontecer tanto com o homem (pai) quanto com a mulher (mãe), sendo que a maneira de expressar os sentimentos da perda nos dois casos acontece de maneira distinta. A mulher tende a sofrer mais nessa fase, inclusive apresentando quadros depressivos, porque os cuidados com os filhos geralmente recai a ela (SARTORI e ZILBERMAN, 2009). Para algumas mulheres, aquelas que têm uma grande identificação com o papel de mãe (SILVEIRA, 2008), esse momento pode ser descrito como triste ou deprimente, isso porque ela perde a centralização desse papel (BEE, 1997). Elas, por se dedicarem, de modo exclusivo, à criação dos filhos, acham difícil vê-los partir. É comum, ao verem seus filhos vivendo bem sem os seus cuidados, sentirem-se sem utilidade. Mesmo as mulheres que trabalharam fora, mas priorizaram a educação dos filhos, correm o risco de sentirem que “não servem para nada” (SARTORI e ZILBERMAN, 2009). Por outro lado, aquelas que exercem atividades diversas, como ter uma vida profissional bem organizada, costumam experimentar essa fase como algo positivo (BEE, 1997).

Outro fator da vida das mulheres também nesse período que devemos levar em consideração é a menopausa. A menopausa agrava a situação porque é comum a mulher se sentir envelhecida e fragilizada emocionalmente, com baixa autoestima (MARTANI; CASTILLO; MOLITÉRNO, s/d).

Já os homens expressam seus sentimentos com respeito à Síndrome do Ninho Vazio acomodando-se, preferindo atividades passivas em casa (SARTORI e ZILBERMAN, 2009).

A duração da Síndrome do Ninho Vazio vai desde a saída do último filho de casa até a organização de uma nova ordem familiar (MARTANI; CASTILLO; MOLITÉRNO, s/d). Este é um período de mudanças e adaptações, é uma fase de turbulência, mas não costuma ser duradoura ou gerar desajustamentos (SARTORI e ZILBERMAN, 2009).

Algo interessante de se notar é que as mulheres sofrem com a saída dos filhos, mas logo percebem vantagens e, inclusive, apontam uma melhora na qualidade de sua vida (SARTORI e ZILBERMAN, 2009).

Existe a necessidade daquele que sofre de tal síndrome de compreendê-la e de buscar novos objetivos para a vida, para que ela não acarrete em uma depressão (MARTANI; CASTILLO; MOLITÉRNO, s/d). Para passar melhor por essa fase, é importante que a pessoa tenha “consciência de que toda mudança traz desconforto, mas também pode levar ao crescimento”. Por isso, devemos olhar para essa fase como um momento para aprimorar o potencial de cada um, uma vez que uma das principais “obrigações” já foram cumpridas. O que ajuda muito é descobrir novas coisas para fazer: atividades que lhe ofereçam prazer e bem-estar, o que contribui para o aumento da autoestima (SARTORI e ZILBERMAN, 2009). Não podemos esquecer que há inúmeras atividades que podem ser desenvolvidas pelo idoso: ele, além de preocupar-se com doenças e mortes (que é a visão preconceituosa da maioria das pessoas mais novas), pode trabalhar, estudar, namorar, participar de passeios, fazer ginástica, dançar, pertencer e participar ativamente de uma comunidade religiosa e fazer filantropia (SILVEIRA, 2008).

A separação sempre é difícil, mas é possível amenizar a dor que ela causa quando existe a possibilidade de ajuda dos pais nessa transição da vida do filho. É importante que os pais percebam que não estão sendo abandonados e que o amor do filho não acabou (MARTANI; CASTILLO; MOLITÉRNO, s/d).

Ademais, quando a vida da pessoa gira em torno de diversos setores, a separação é mais tranquila do que quando o genitor estruturou sua vida de acordo com a vida do filho. Assim, trabalho, cursos, amigos, cônjuge, entre outras possibilidades ajudam muito nesse período (MARTANI; CASTILLO; MOLITÉRNO, s/d).

Ao saírem de casa, os filhos, muito provavelmente, deixam espaço para que os pais se deparem um com o outro (SILVEIRA, 2008). Isso pode ser bom ou não, dependerá do casal e como ele foi sendo constituído como tal ao longo do tempo. “Vários estudos têm demonstrado que, após a saída dos filhos de casa, a maioria dos casais se reencontra e vive bem física, social e psicologicamente, aumentando, assim, a qualidade de vida” (SARTORI e ZILBERMAN, 2009). Entretanto, não é raro que os parceiros se olhem como estranhos, pois passaram tanto tempo dedicando-se a outras coisas que pouco investiram na relação deles próprios. Então, nesse momento, sentem uma “espécie de solidão a dois”. Nessa situação, existe pouco diálogo e, por isso, eles não acompanham as mudanças do parceiro, tendendo a ter a visão do outro de tempos atrás. Nada é compartilhado e as mágoas e frustrações tornam o casamento uma relação fria (SILVEIRA, 2008).

Ou seja, o Ninho Vazio traz mudanças para a vida dos envolvidos, mas estas podem ser positivas ou negativas, dependendo dos olhos de quem o está vivenciando. Se forem positivas, é só curtir a vida e aproveitar as oportunidades que surgem. Se forem negativas, é importante procurar ajuda para reverter essa situação e investir, assim, na qualidade de vida.

 

Referências bibliográficas:

BARROS, Myriam Lins de. Entrevistas: Antropóloga analisa situação de idosos sob a ótica dos próprios. In: Site ComCiência. 10/09/2002. Disponível em: http://www.comciencia.br/entrevistas/envelhecimento/myriam.htm. Acesso: 07 fev. 2012.

BEE Helen. O ciclo vital. Porto Alegre: Artes Médicas; 1997.

MARTANI, Silvana; CASTILLO, Sueli; MOLITÉRNO, Suely. Saiba o que é a síndrome do ninho vazio. In: Site do Terra. Disponível: http://mulher.terra. com.br/noticias/0,,OI3003219-EI1377,00-Saiba+o+que+e+a+sindrome+do+ ninho+vazio .html. Acesso: 06 fev. 2012.

SARTORI, Adriana C. R.; ZILBERMAN, Monica L.. Revisitando o conceito de síndrome do ninho vazio. Rev. psiquiatr. clín.,  São Paulo,  v. 36,  n. 3,   2009.   Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-60832009000300005&lng=en&nrm=iso. Acesso: 07 fev.  2012.

SILVEIRA, Teresinha Mello da. Solidão, amor e sexo na mulher de mais de sessenta anos. Revista Abordagem Gestáltica,  Goiânia,  v. 14,  n. 1, jun.  2008.   Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid= S1809-68672008000100004&lng=pt&nrm=iso. Acesso: 06  fev.  2012.